Imaginário & Devaneios de uma Poética

Esta página é destinada à fruição dos devaneios e onirismos de uma poética do imaginário.

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Mestrando em Teoria da Literatura.

terça-feira, abril 18, 2006

DO PRIMEIRO BEIJO AO BEIJO – Uma leitura




A Kiss is still a Kiss/ (...) The fundamental thing apply as time goes by
(Um beijo é só um beijo,/ (...) as coisas fundamentais acontecem enquanto o tempo passa)
(As Time Góes By – trilha sonora do filme Casablanca)


No dicionário Aurélio, encontramos a definição da palavra beijo como: “[Do lat. basiu.] S.m. 1. Ato de tocar com os lábios em alguém ou alguma coisa, fazendo leve sucção; ósculo.” Mas nossa pretensão não é de analisar de forma objetiva uma reação tão espontânea e sadia de um ato que reflete a consagração de uma conquista.
A temática do beijo tem inspirado a produção de grandes obras na literatura, na arte plástica, no cinema e na música por ser um tema relacionado ao amor, a traição, a sedução.
O nosso enfoque é o beijo do amor. E, aqui, apenas apresentamos uma leitura do conto “O primeiro beijo”, de Clarice Lispector e, com este, aludimos ao tema três obras consagradas dos artistas plásticos Auguste Rodin, Constantin Brancusi e Gustav Klimt intituladas “O Beijo”.
No conto, Clarice se revela fielmente ao que ela se diz “Sou uma intuitiva, uma sentidora”[1], pois este nos deixa entrever claramente a que veio a autora. Falar do amor, do primeiro ato de amor.
É bem certo que, a atitude de Lispector neste seu texto, não é a de definir este momento, mas vemos que ela procede como Barthes que responde a seguinte pergunta: “Que é que eu penso do amor? – Em suma, não penso nada. Bem que eu gostaria de saber o que é, mas estando do lado de dentro, eu o vejo em existência, não em essência.”[2]
A narrativa começa com uma breve apresentação de dois personagens enamorados e seqüencia um curto diálogo em que a namorada indaga ao namorado se ele já havia beijado uma outra mulher antes dela e este responde que sim. Então ela pergunta “Quem era ela?, perguntou com dor.”
O narrador vincula em seu discurso o amor ao ciúme, quanto a isto Barthes revela “Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.”[3] Este sentimento revela o medo da perda ou impureza da coisa possuída.
O diálogo se encerra e entram em cena as lembranças do jovem namorado. Com este ato introspectivo, o personagem, pelo narrador, passa a reviver o tempo em que se deu o primeiro encontro com Eros. Passa então a sentir uma sede; uma energia primária o contagia, o que Freud chama de libido.
O protagonista procura conter sua sede retendo em sua boca saliva – “[...] O jeito era juntar saliva, e foi o que fez [...]”. Mas esta sede não lhe era aplacada. Mais e mais o desejo de beber da água da fonte o inquietava. Vemos aqui que, com esta imaginação “A água é, então, um organismo de suas paisagens; não é verdadeiramente a ‘substância’ de seus devaneios.” [4]
Quanto tempo mais de espera terá o jovem para de uma só vez matar esta sede? A água aqui é este objeto de fascínio e de solução às necessidades do protagonista. Isto corrobora o que Eagleton declara “Temos de nos contentar com objetos substitutivos, aquilo que Lacan chama de ‘objeto petit a’, com o qual tentamos inutilmente preencher a lacuna no centro mesmo de nosso ser.”[5] A água é ,portanto, metáfora do feminino implícita na sede voraz que se apodera do namorado.
E eis o encontro: “O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos, estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.” Por fim, toda a sua expectativa, ansiedade passariam a por um termo. Bachelard enuncia “A fonte é um nascimento irresistível, um nascimento contínuo.”[6] Assim, ao tocar sua boca no veio d’água, o frescor deste líquido o põe em êxtase, um “sair de si”. O prazer provocado por essa energia sexual, acordando-lhe o furor instintivo, revela-o o animal que há em si, mas a racionalidade faz que seus olhos vejam a boca que beijara, “a estátua de uma mulher”. Quem és... meretriz, samaritana ou a Vênus? Não importa. O que se sabe é que aquela sede foi satisfeita. “Ele se tornara homem.”
O desejo de um corpo é o de um outro corpo possuir e de ser desejado, e possuído; faz parte da química do Amor. Portanto, ao lermos Clarice, em seu “O primeiro beijo”, dar-se essa química: uma reação acompanhada de sede, salivação e calor. Em Rodin, vemos essa mesma alquimia. A sua obra “O Beijo” traduz muito bem esse elemento (o amor). Corpos despidos que, pelo beijo, revelam o reconhecimento um do outro. Sobre Rodin, Argan se manifesta afirmando que ele é “o escultor de pensamentos profundos, o Michelangelo da belle époque”[7]. Um homem e uma mulher que se completam, que se confessam amantes. Ele é um escultor que, ao fazer um mergulho na intimidade da consciência humana, tenta, em forma de ícone, revelar suas impressões sobre o amor.
Por outro lado, “O Beijo”, de Klimt, é um beijo em que a figura masculina exerce um poder sobre a figura feminina, mas é uma relação conscienciosa. André Carvalho e Ary Quitella expressam o pensamento de Hannah Arendt quando ela diz: “O poder é a maneira de se chegar a um acordo quanto à ação comum, trocando-se opiniões e sem violência.”[8] Assim, vemos a força do macho a segurar sua fêmea que se entrega por inteira.
Já em Brancusi, seu “O Beijo” revela um amor simples, despretensioso; um amor maduro em que um não se sobrepõe ao outro; amor de iguais em seus sentimentos. Argan se pronuncia falando que para Brancusi “a obra de arte não é um discurso, e sim uma palavra que diz tudo e tudo pode, mágica.”[9] Sendo assim, o que vemos em seu trabalho é a “mágica” do Amor.
Assim, o que acabamos de observar na literatura de Clarice Lispector e nas artes plásticas de August Rodin, Gustav Klimt e Constantin Brancusi são imagens do beijo, percepção que cada um traduz mediante seu contexto.



Notas:

[1] LISPECTOR, Clarice. O primeiro beijo e outros contos. São Paulo, 1991. Ática, p. 3
[2] Fragmento de um discurso amoroso, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1981
[3] Idem, 1981. p. 47
[4] BACHELARD, Gaston. A Água e os Sonhos – Ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo, 2002. Martins Fontes, p. 6
[5] Teoria Literária – Uma Introdução. São Paulo, 2003, Martins Fontes, p. 231
[6] A Água e os Sonhos - Ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo, 2002. Martins Fontes, p. 15
[7] Arte Moderna. São Paulo, 1992, Companhia das Letras, p. 208
[8] Poder. Editora Lê, Belo Horizonte, MG, 1988, p. 18
[9] Arte Moderna. São Paulo, 1992. Companhia das Letras, p. 463