Imaginário & Devaneios de uma Poética

Esta página é destinada à fruição dos devaneios e onirismos de uma poética do imaginário.

Minha foto
Nome:
Local: Recife, Pernambuco, Brazil

Mestrando em Teoria da Literatura.

quinta-feira, abril 20, 2006

O Expressionismo Abstrato Animado de Louis Schanker


THREE MEN (1937)

Um dos objetivos da arte é comunicar algo ao observador e admirador de arte, pois esta é uma linguagem que tem uma relação consideravelmente empática com o interlocutor. E aqui cabe uma pergunta pertinente ao objeto exposto: o que é que estamos vendo?
Schanker em seu trabalho titulado de “Three men” expõe uma pintura a óleo sobre tela, na dimensão de 54” x 68” (137.2 x 172.7 cm), do ano de 1937. Trata-se de um abstrato e figurativo, uma obra no mínimo intrigante, pois, como um abstrato pode abrir espaço para o figurativo? E o artista o faz com ousadia, próprio de quem conhece muito bem o que se pode fazer com tinta, tela e pincel. Um trabalho cujo efeito é o de prender a atenção do contemplador pelas cores e traços decisivos. Uma obra que envereda pelo expressionismo animado visando uma estrutura fundamentalmente emocional e que não quer ferir aos amantes do abstracionismo nem tão pouco aos ávidos pelo figurativo, mas sim de integrar as manifestações artísticas. Desenho e pintura, um casamento. Numa atitude em que o espaço da tela é todo preenchido harmonicamente fazendo com que os olhos bailem uníssonos diante da bela narrativa que se expressa em tal trabalho. Se sua intenção é de provocar tamanha narratividade, vemos que esta acontece. Três figuras em plena ação interlocutória, que reagem à musicalidade das cores decisivamente expostas. Não importa aqui o que eles escutam, que nota musical ressoa em torno do espaço por eles ocupado, ou mesmo o que falam, mas o que realmente conta é o ritmo gracioso orquestrado pelo pintor.
Diz Donis A. Dondis: “Visualizar é ser capaz de formar imagens mentais”[1]. A obra aqui tratada, faz-nos plasmar em nossa tela mental além de imagens a possibilidade de se ouvir música. Eis a força imaginária desta composição pictórica. O seu input visual.
O ser humano é dotado de cinco sentidos que o faculta ver, ouvir, sentir, degustar, cheirar. Esses mecanismos de que é dotado o ser vêm nortear a sua capacidade criadora que é de instigar esses sistemas da natureza humana. O trabalho do Schanker tem tal propósito quando nos envolve com suas cores e traços. Ele nos provoca a visão e, além do mais, a audição ao fazer uso de certas simbologias musicais como o pentagrama, que marcam os traços dos dedos das mãos das figuras; o semibreve, formando a boca da figura à esquerda da tela; máxima, que fica na altura do peito da figura localizada à direita; símbolo do compasso quaternário, marcado no olho da figura à direita; símbolo do compasso binário, na cabeça da figura ao centro. Portanto, não estamos só diante da presença de cores e linhas, mas também de sons que ressoam do imaginário sugerido por esta composição plástica.
As linhas traçadas pelo pintor provocam verdadeira tensão aos olhos, mas esta variação complexa e inesperada conduz o observador compreender que este está diante de um projeto de valorização do musical. “Nas artes visuais, a linha tem, por sua própria natureza, uma enorme energia. Nunca é estática; é o elemento visual inquieto e inquiridor do esboço.” [2] O que aqui observamos é que as linhas flexibilizam uma energia musical contínua; elas ondulam movidas pelas vibrações tonais apresentadas.
Há neste trabalho artístico um outro ponto a ser destacado que é a presença do elemento três. Três são as cores puras: vermelho, amarelo e azul. As cores mantêm uma forte relação com o emocional. Dondis declara que essas cores possuem qualidades fundamentais: “O amarelo é a cor que se considera mais próxima da luz e do calor; o vermelho é a mais ativa e emocional; o azul é passivo e suave. O amarelo e o vermelho tendem a expandir-se; o azul, a contrair-se”.[3] É a partir desta abordagem do Dondis que percebo na tela em questão o quanto as manchas coloridas caracterizam uma freqüência cromática que envolve as figuras como se fora as notas de uma melodia ora dramática, ora tranqüilizadora, convocando a participação ativa de todos os elementos figurativos presentes. Há uma profusão de cores que fazem os olhos se dilatarem convocando o contemplador ao domínio do puro sensível, a fim de compreender o que se passa em cena pictórica.
As cores manipuladas pelo pintor explodem; acontecem como uma manifestação do encantamento poético de uma sonata. A forma é perceptível a partir da configuração esquemática por ele adotada. Tudo é sugestão.
Outro ponto do elemento três que me faz voltar à atenção está no próprio título da obra “Three Men”. Isso nos remete a grupo e recorro a Greimas que assinala: “Na sua acepção mais ampla, o termo ‘grupo’ parece designar um conjunto de elementos discretos, considerados como um todo em virtude da posse por cada um deles – tomados separadamente – das características comuns ao conjunto. [...] Entretanto, as qualificações comuns a todos os elementos do grupo podem ser não somente objetivas – como é o caso quando se fala de grupos de árvores ou de grupos de estudantes – mas também subjetivas: assim, o denominador comum que permite apreender como um conjunto ‘um grupo de curiosos’ ou ‘um grupo de manifestantes’ pode ser constituído ora como um ‘desejo de ver’, ora como ‘o fato de manifestar’.”[4] Sobre essa concepção de grupo, vejo nesta pintura três figuras que remetem uma referência ao universo social daqueles que nutrem o mesmo ideal imaginário, em virtude do caráter subjetivo expresso nesta composição. O que querem ou fazem é o de menos presentificado nesta obra, mas o que importa é o que “repercute” neste espaço. E, a meu ver, a imagem proposta pela pintura conduz-nos a um espaço feliz que fascina a imaginação do contemplador.
Não há a menor pretensão do artista de fazer do seu trabalho uma mera representação, ou seja, apropriando-me das palavras de Argan para outro artista, “o problema consiste na comunicação da imagem: como transmiti-la em estado puro, sem transformá-la na representação de si mesma, sem privá-la de sua subjetividade absoluta”.[5]
Assim, sentimos mais do que vemos quando estamos diante de uma pintura como esta ora apresentada. Falo isso em virtude da fluidez subjetiva desta obra de arte. Não a compreenderemos se não nos deixarmos mergulhar no que ela sugere. “É certo que as sugestões nada têm de realistas. São vagas, reduzidas ao traçado mínimo necessário para terem algum poder de referência, isto é, para funcionarem como imagens, no sentido peirceano, signos que representam seus objetos por apresentarem semelhanças de aparência com eles”.[6] Mas a preocupação aqui do pintor não é com esta manifestação sígnica do espaço imaginado. É uma operação de sentidos atentos, de averiguação cósmica pelas cores, traços e harmonia dos movimentos rítmicos marcadamente significativos.

Notas:

[1] DONDIS, Donis A. Sintaxe da Linguagem Visual. 1ª ed. S. Paulo. Martins Fontes.1991. p. 14.
[2] Idem. p. 56.
[3] Idem. p. 65.
[4] GREIMAS, A. J. Semiótica e Ciências Sociais. São Paulo. Ed. Cultrix, 1976. p. 105.
[5] ARGAN, G. C. Arte Moderna. São Paulo. Companhia das Letras, 1992. p. 447.
[6] SANTAELLA, Lucia. Semiótica Aplicada. São Paulo. Thomson, 2002. p. 91.