Imaginário & Devaneios de uma Poética

Esta página é destinada à fruição dos devaneios e onirismos de uma poética do imaginário.

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Local: Recife, Pernambuco, Brazil

Mestrando em Teoria da Literatura.

sábado, abril 22, 2006

“UM BEIJO NO ASFALTO”





Uma leitura da obra fílmica de Bruno Barreto

Um corpo estendido no chão assinala a história de um beijo que passa a acontecer no imaginário coletivo de todos presentes à cena, em que Tânatos vem em cortejo levar a alma de um moribundo.
A cena segue seu curso nos apresentando uma figura angelical dentro de um ônibus. Este anjo contempla a vítima como se dissesse ao mundo da dor sentida e do horror que se descortinaria a partir daquele instante. Um anjo por trás de um pára-brisa embaçado pela mancha do sangue do personagem falecido. Um pára-brisa que serve de escudo separando-o da obscuridade humana. Encontramos no Dicionário de Símbolos, de Chevalier e Gheerbrant o seguinte conceito de anjos: “Seres intermediários entre Deus e o mundo, mensageiros sob formas diversas nos textos bíblicos e outros. Seriam seres puramente espirituais, ou espíritos datados de um corpo etéreo, aéreo; mas não poderia revestir dos homens senão as aparências. Ocupariam para Deus as funções de ministros: mensageiros, guardiãs, condutores de astros, executores de leis, protetores dos eleitos etc.” (1994) Há um relato bíblico em que nos diz da vinda de um anjo, de nome Gabriel, anunciar a Virgem Maria a gravidez dela – a chegada do primogênito, filho de Deus, à terra. E o que nos proclamaria então aquele anjo dentro de um coletivo?
Possivelmente uma torrente de respostas poderá nos advir. Mas reflitamos um pouco a fim de que tenhamos uma resposta possível dos acontecimentos arrolados no filme em questão.
Uma antítese fica clara no filme de Barreto: o bem e o mal. A figura angelical, ao certo, é a representação do bem, assim como o suposto primeiro beijo dado no asfalto o seria, pois acontece como um ato solidário e de compaixão a dor alheia. Mas, no entanto, este procedimento só fez puxar um fio de uma teia social extremamente complexa, revelando-nos os desvarios de uma sociedade que oscila entre o normal e o patológico. Durkheim diz que “para as sociedades como para os indivíduos, sendo a saúde boa e desejável, é a doença, ao contrário, algo de ruim que deve ser evitado.”(2001, 42) Mas até onde o que nos parece são o é? A competitividade de uma sociedade ávida por consumo e individualista poderá ser a representação da saúde?
Pois bem, no filme nos deparamos com um personagem que nos chama atenção por sua postura: um jornalista que teve a “sorte” de presenciar uma cena de um beijo dado por um homem em outro que estava ultimando. Ao jornalista, podemos chamá-lo de “são”, pois a ele é conferido o direito de relatar os fatos que acontecem em nosso meio social. Porém, as atitudes demonstradas por este nos faz questionar o uso desse direito, por ter manipulado a seu favor o fato do suposto beijo no asfalto. Um procedimento sadio transformado em doença, pois, como se vê, trata-se de uma instabilidade patológica. A satisfação ou prazer do jornalista passou a ser o sofrimento alheio. O seu ganho está no fracasso do outro. Christopher Lasch diz que “segundo Maccoby, o ‘manipulador’ ‘é aberto a novas idéias, mas faltam-lhe convicções”. (1983, 71) Ou seja, este usará de qualquer meio a fim de que possa provar sua virilidade. Um comportamento inteiramente narcisista.
Ao que parece, a primeira visão do anjo seria a praga narcisista campeando com seu vírus toda a sociedade, em que sua primeira vítima foi abatida no primeiro beijo dado no asfalto.
Uma possível segunda visão seria a passagem das Harpias fazendo vir toda a podridão social como corrupção, falso moralismo, dentre outros.
Como vemos, Eros na figura de anjo se apieda do sofrimento causado por Tânatos marcando uma última visão de um beijo de morte que mais uma alma leva a Hades, seu reino de horror.



REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 2000.

CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro, José Olympio, 1994.

DURKHEIM, Emile. As regras do método sociológico. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 2001.

LANCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de janeiro, Imago Editora, 1983.

quinta-feira, abril 20, 2006

O Expressionismo Abstrato Animado de Louis Schanker


THREE MEN (1937)

Um dos objetivos da arte é comunicar algo ao observador e admirador de arte, pois esta é uma linguagem que tem uma relação consideravelmente empática com o interlocutor. E aqui cabe uma pergunta pertinente ao objeto exposto: o que é que estamos vendo?
Schanker em seu trabalho titulado de “Three men” expõe uma pintura a óleo sobre tela, na dimensão de 54” x 68” (137.2 x 172.7 cm), do ano de 1937. Trata-se de um abstrato e figurativo, uma obra no mínimo intrigante, pois, como um abstrato pode abrir espaço para o figurativo? E o artista o faz com ousadia, próprio de quem conhece muito bem o que se pode fazer com tinta, tela e pincel. Um trabalho cujo efeito é o de prender a atenção do contemplador pelas cores e traços decisivos. Uma obra que envereda pelo expressionismo animado visando uma estrutura fundamentalmente emocional e que não quer ferir aos amantes do abstracionismo nem tão pouco aos ávidos pelo figurativo, mas sim de integrar as manifestações artísticas. Desenho e pintura, um casamento. Numa atitude em que o espaço da tela é todo preenchido harmonicamente fazendo com que os olhos bailem uníssonos diante da bela narrativa que se expressa em tal trabalho. Se sua intenção é de provocar tamanha narratividade, vemos que esta acontece. Três figuras em plena ação interlocutória, que reagem à musicalidade das cores decisivamente expostas. Não importa aqui o que eles escutam, que nota musical ressoa em torno do espaço por eles ocupado, ou mesmo o que falam, mas o que realmente conta é o ritmo gracioso orquestrado pelo pintor.
Diz Donis A. Dondis: “Visualizar é ser capaz de formar imagens mentais”[1]. A obra aqui tratada, faz-nos plasmar em nossa tela mental além de imagens a possibilidade de se ouvir música. Eis a força imaginária desta composição pictórica. O seu input visual.
O ser humano é dotado de cinco sentidos que o faculta ver, ouvir, sentir, degustar, cheirar. Esses mecanismos de que é dotado o ser vêm nortear a sua capacidade criadora que é de instigar esses sistemas da natureza humana. O trabalho do Schanker tem tal propósito quando nos envolve com suas cores e traços. Ele nos provoca a visão e, além do mais, a audição ao fazer uso de certas simbologias musicais como o pentagrama, que marcam os traços dos dedos das mãos das figuras; o semibreve, formando a boca da figura à esquerda da tela; máxima, que fica na altura do peito da figura localizada à direita; símbolo do compasso quaternário, marcado no olho da figura à direita; símbolo do compasso binário, na cabeça da figura ao centro. Portanto, não estamos só diante da presença de cores e linhas, mas também de sons que ressoam do imaginário sugerido por esta composição plástica.
As linhas traçadas pelo pintor provocam verdadeira tensão aos olhos, mas esta variação complexa e inesperada conduz o observador compreender que este está diante de um projeto de valorização do musical. “Nas artes visuais, a linha tem, por sua própria natureza, uma enorme energia. Nunca é estática; é o elemento visual inquieto e inquiridor do esboço.” [2] O que aqui observamos é que as linhas flexibilizam uma energia musical contínua; elas ondulam movidas pelas vibrações tonais apresentadas.
Há neste trabalho artístico um outro ponto a ser destacado que é a presença do elemento três. Três são as cores puras: vermelho, amarelo e azul. As cores mantêm uma forte relação com o emocional. Dondis declara que essas cores possuem qualidades fundamentais: “O amarelo é a cor que se considera mais próxima da luz e do calor; o vermelho é a mais ativa e emocional; o azul é passivo e suave. O amarelo e o vermelho tendem a expandir-se; o azul, a contrair-se”.[3] É a partir desta abordagem do Dondis que percebo na tela em questão o quanto as manchas coloridas caracterizam uma freqüência cromática que envolve as figuras como se fora as notas de uma melodia ora dramática, ora tranqüilizadora, convocando a participação ativa de todos os elementos figurativos presentes. Há uma profusão de cores que fazem os olhos se dilatarem convocando o contemplador ao domínio do puro sensível, a fim de compreender o que se passa em cena pictórica.
As cores manipuladas pelo pintor explodem; acontecem como uma manifestação do encantamento poético de uma sonata. A forma é perceptível a partir da configuração esquemática por ele adotada. Tudo é sugestão.
Outro ponto do elemento três que me faz voltar à atenção está no próprio título da obra “Three Men”. Isso nos remete a grupo e recorro a Greimas que assinala: “Na sua acepção mais ampla, o termo ‘grupo’ parece designar um conjunto de elementos discretos, considerados como um todo em virtude da posse por cada um deles – tomados separadamente – das características comuns ao conjunto. [...] Entretanto, as qualificações comuns a todos os elementos do grupo podem ser não somente objetivas – como é o caso quando se fala de grupos de árvores ou de grupos de estudantes – mas também subjetivas: assim, o denominador comum que permite apreender como um conjunto ‘um grupo de curiosos’ ou ‘um grupo de manifestantes’ pode ser constituído ora como um ‘desejo de ver’, ora como ‘o fato de manifestar’.”[4] Sobre essa concepção de grupo, vejo nesta pintura três figuras que remetem uma referência ao universo social daqueles que nutrem o mesmo ideal imaginário, em virtude do caráter subjetivo expresso nesta composição. O que querem ou fazem é o de menos presentificado nesta obra, mas o que importa é o que “repercute” neste espaço. E, a meu ver, a imagem proposta pela pintura conduz-nos a um espaço feliz que fascina a imaginação do contemplador.
Não há a menor pretensão do artista de fazer do seu trabalho uma mera representação, ou seja, apropriando-me das palavras de Argan para outro artista, “o problema consiste na comunicação da imagem: como transmiti-la em estado puro, sem transformá-la na representação de si mesma, sem privá-la de sua subjetividade absoluta”.[5]
Assim, sentimos mais do que vemos quando estamos diante de uma pintura como esta ora apresentada. Falo isso em virtude da fluidez subjetiva desta obra de arte. Não a compreenderemos se não nos deixarmos mergulhar no que ela sugere. “É certo que as sugestões nada têm de realistas. São vagas, reduzidas ao traçado mínimo necessário para terem algum poder de referência, isto é, para funcionarem como imagens, no sentido peirceano, signos que representam seus objetos por apresentarem semelhanças de aparência com eles”.[6] Mas a preocupação aqui do pintor não é com esta manifestação sígnica do espaço imaginado. É uma operação de sentidos atentos, de averiguação cósmica pelas cores, traços e harmonia dos movimentos rítmicos marcadamente significativos.

Notas:

[1] DONDIS, Donis A. Sintaxe da Linguagem Visual. 1ª ed. S. Paulo. Martins Fontes.1991. p. 14.
[2] Idem. p. 56.
[3] Idem. p. 65.
[4] GREIMAS, A. J. Semiótica e Ciências Sociais. São Paulo. Ed. Cultrix, 1976. p. 105.
[5] ARGAN, G. C. Arte Moderna. São Paulo. Companhia das Letras, 1992. p. 447.
[6] SANTAELLA, Lucia. Semiótica Aplicada. São Paulo. Thomson, 2002. p. 91.

terça-feira, abril 18, 2006

DO PRIMEIRO BEIJO AO BEIJO – Uma leitura




A Kiss is still a Kiss/ (...) The fundamental thing apply as time goes by
(Um beijo é só um beijo,/ (...) as coisas fundamentais acontecem enquanto o tempo passa)
(As Time Góes By – trilha sonora do filme Casablanca)


No dicionário Aurélio, encontramos a definição da palavra beijo como: “[Do lat. basiu.] S.m. 1. Ato de tocar com os lábios em alguém ou alguma coisa, fazendo leve sucção; ósculo.” Mas nossa pretensão não é de analisar de forma objetiva uma reação tão espontânea e sadia de um ato que reflete a consagração de uma conquista.
A temática do beijo tem inspirado a produção de grandes obras na literatura, na arte plástica, no cinema e na música por ser um tema relacionado ao amor, a traição, a sedução.
O nosso enfoque é o beijo do amor. E, aqui, apenas apresentamos uma leitura do conto “O primeiro beijo”, de Clarice Lispector e, com este, aludimos ao tema três obras consagradas dos artistas plásticos Auguste Rodin, Constantin Brancusi e Gustav Klimt intituladas “O Beijo”.
No conto, Clarice se revela fielmente ao que ela se diz “Sou uma intuitiva, uma sentidora”[1], pois este nos deixa entrever claramente a que veio a autora. Falar do amor, do primeiro ato de amor.
É bem certo que, a atitude de Lispector neste seu texto, não é a de definir este momento, mas vemos que ela procede como Barthes que responde a seguinte pergunta: “Que é que eu penso do amor? – Em suma, não penso nada. Bem que eu gostaria de saber o que é, mas estando do lado de dentro, eu o vejo em existência, não em essência.”[2]
A narrativa começa com uma breve apresentação de dois personagens enamorados e seqüencia um curto diálogo em que a namorada indaga ao namorado se ele já havia beijado uma outra mulher antes dela e este responde que sim. Então ela pergunta “Quem era ela?, perguntou com dor.”
O narrador vincula em seu discurso o amor ao ciúme, quanto a isto Barthes revela “Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.”[3] Este sentimento revela o medo da perda ou impureza da coisa possuída.
O diálogo se encerra e entram em cena as lembranças do jovem namorado. Com este ato introspectivo, o personagem, pelo narrador, passa a reviver o tempo em que se deu o primeiro encontro com Eros. Passa então a sentir uma sede; uma energia primária o contagia, o que Freud chama de libido.
O protagonista procura conter sua sede retendo em sua boca saliva – “[...] O jeito era juntar saliva, e foi o que fez [...]”. Mas esta sede não lhe era aplacada. Mais e mais o desejo de beber da água da fonte o inquietava. Vemos aqui que, com esta imaginação “A água é, então, um organismo de suas paisagens; não é verdadeiramente a ‘substância’ de seus devaneios.” [4]
Quanto tempo mais de espera terá o jovem para de uma só vez matar esta sede? A água aqui é este objeto de fascínio e de solução às necessidades do protagonista. Isto corrobora o que Eagleton declara “Temos de nos contentar com objetos substitutivos, aquilo que Lacan chama de ‘objeto petit a’, com o qual tentamos inutilmente preencher a lacuna no centro mesmo de nosso ser.”[5] A água é ,portanto, metáfora do feminino implícita na sede voraz que se apodera do namorado.
E eis o encontro: “O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos, estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.” Por fim, toda a sua expectativa, ansiedade passariam a por um termo. Bachelard enuncia “A fonte é um nascimento irresistível, um nascimento contínuo.”[6] Assim, ao tocar sua boca no veio d’água, o frescor deste líquido o põe em êxtase, um “sair de si”. O prazer provocado por essa energia sexual, acordando-lhe o furor instintivo, revela-o o animal que há em si, mas a racionalidade faz que seus olhos vejam a boca que beijara, “a estátua de uma mulher”. Quem és... meretriz, samaritana ou a Vênus? Não importa. O que se sabe é que aquela sede foi satisfeita. “Ele se tornara homem.”
O desejo de um corpo é o de um outro corpo possuir e de ser desejado, e possuído; faz parte da química do Amor. Portanto, ao lermos Clarice, em seu “O primeiro beijo”, dar-se essa química: uma reação acompanhada de sede, salivação e calor. Em Rodin, vemos essa mesma alquimia. A sua obra “O Beijo” traduz muito bem esse elemento (o amor). Corpos despidos que, pelo beijo, revelam o reconhecimento um do outro. Sobre Rodin, Argan se manifesta afirmando que ele é “o escultor de pensamentos profundos, o Michelangelo da belle époque”[7]. Um homem e uma mulher que se completam, que se confessam amantes. Ele é um escultor que, ao fazer um mergulho na intimidade da consciência humana, tenta, em forma de ícone, revelar suas impressões sobre o amor.
Por outro lado, “O Beijo”, de Klimt, é um beijo em que a figura masculina exerce um poder sobre a figura feminina, mas é uma relação conscienciosa. André Carvalho e Ary Quitella expressam o pensamento de Hannah Arendt quando ela diz: “O poder é a maneira de se chegar a um acordo quanto à ação comum, trocando-se opiniões e sem violência.”[8] Assim, vemos a força do macho a segurar sua fêmea que se entrega por inteira.
Já em Brancusi, seu “O Beijo” revela um amor simples, despretensioso; um amor maduro em que um não se sobrepõe ao outro; amor de iguais em seus sentimentos. Argan se pronuncia falando que para Brancusi “a obra de arte não é um discurso, e sim uma palavra que diz tudo e tudo pode, mágica.”[9] Sendo assim, o que vemos em seu trabalho é a “mágica” do Amor.
Assim, o que acabamos de observar na literatura de Clarice Lispector e nas artes plásticas de August Rodin, Gustav Klimt e Constantin Brancusi são imagens do beijo, percepção que cada um traduz mediante seu contexto.



Notas:

[1] LISPECTOR, Clarice. O primeiro beijo e outros contos. São Paulo, 1991. Ática, p. 3
[2] Fragmento de um discurso amoroso, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1981
[3] Idem, 1981. p. 47
[4] BACHELARD, Gaston. A Água e os Sonhos – Ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo, 2002. Martins Fontes, p. 6
[5] Teoria Literária – Uma Introdução. São Paulo, 2003, Martins Fontes, p. 231
[6] A Água e os Sonhos - Ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo, 2002. Martins Fontes, p. 15
[7] Arte Moderna. São Paulo, 1992, Companhia das Letras, p. 208
[8] Poder. Editora Lê, Belo Horizonte, MG, 1988, p. 18
[9] Arte Moderna. São Paulo, 1992. Companhia das Letras, p. 463

Brasil descoberto


Para refletirmos sobre o aniversário de descoberta do Brasil

Um dia me falaram sobre o descobrimento do Brasil; um dia me disseram que este é um país de “Ordem e Progresso”.
Hoje, como cidadão e cumpridor de meus deveres cíveis, passo a refletir sobre o que representou a este país um “descobrimento” em terras já povoadas. E me questiono o que de fato é “descobrimento” para os que proclamaram tal substantivo, referindo-me a forma de como a esta terra aportaram os portugueses.
Segundo o “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”, descobrir = [De dês- + cobrir.] V.t.d. 1. Tirar cobertura, véu, tampa, ou qualquer outra coisa que ocultava total ou parcialmente, deixando à vista: descobrir a cabeça; descobrir a panela. 2. Deixar ver; mostrar: A maré vazante descobriu as areias. 3. Encontrar pela primeira vez: Cabral descobriu o Brasil. 4. Resolver, solver, solucionar; decifrar: descobrir um enigma. Dar com; achar, encontrar: descobrir um tesouro; descobrir um atalho. 6. Patentear, evidenciar: descobrir a verdade. 7. Manifestar, revelar: descobrir segredos. 8. Dar a conhecer: Suas atitudes descobriram seu caráter. 9. Denunciar, delatar: descobrir o criminoso. (...).
Vê-se acima que a pluridimencionalidade da palavra posta em xeque é bastante enriquecedora e oportuna para uma boa avaliação do que poderemos ainda ver a emergir da profundidade destas águas tão turbulentas sopradas pelos ventos alísios. E ainda me pergunto o que falta a nós brasileiros para definitivamente tirarmos o véu e deixar aparecer à vista o que estão fazendo com o Brasil? Creio que o brasileiro ainda não se deixou dar a conhecer o seu país.
A falta de moralidade nos órgãos públicos, a falta de ética, a falta de patriotismo em que nos vemos mergulhados passam a ser uma nódoa vergonhosa no branco da nossa insígnia, em que posta se faz a legenda “Ordem e Progresso”.
Desordem parece ser a ordem do dia. Até quando o povo que faz esta nação deixará a impunidade achincalhar a nossa Constituição?
O progresso depende fundamentalmente da ordem. E ela nos tem faltado pelos que estão a governar este país. A toda hora vê-se exemplo de antipatriotismo, de falta de amor a um país generoso para com seu povo, escândalos de todos os tipos. É vergonhoso e desonroso para a nossa gente garrida.
Talvez para alguns este seja um ponto de vista bastante romântico, mas, ao certo, é que não mais podemos permitir nos posicionarmos quais avestruzes, escondendo as nossas cabeças. É necessário que os nossos olhos mirem um horizonte promissor, sem pesadelos que hora pairam em nosso país. É preciso reconhecermos o valor da educação, a fim de aparecer à vista o brio de nossos patriotas. É imprescindível que nos sintamos co-participantes do desenvolvimento de nossa pátria, exigindo, de nós mesmo e mais ainda de quem pusemos no poder, medidas que nos façam compreender o verdadeiro descobrimento do Brasil.

segunda-feira, abril 17, 2006


A leitura e minha sede


Ler me tem provocado muita sede. Sim, uma sede que não sei se posso explicar para não cair no óbvio do dito. Meu dia é extremamente exaustivo, quanta leitura, quanta sede, quanto calor. Será o calor da expectativa de concluir a leitura? Ou será da sede que me atormenta? Não sei se terei respostas para tais incertezas. Mas continuo com muita vontade de beber água. Por que será que ela se evapora se a deixo exposta ao relento? Melhor bebê-la antes que ela se vá com o tempo.
Minha leitura! Ah! Minha doce leitura, que delícia! Que bom sua companhia! Acho que para aliviar este calor vou tirar minha roupa, assim poderei ler mais à vontade sem o desconforto disto que me cobre. Pronto! Acho que já estou mais fresco. Mas continuo com sede. Um copo, água. Será que tudo tem essa relação de dependência como a água e um copo? Preciso voltar a minha leitura e parar de fazer conjecturas.
Nossa! esse capítulo é imenso, como estou cansado em lê-lo. Só me deixa mais com sede. Está um poço sem fundo, não me leva a nada. O quê? Não escuto o que ele me diz. Será que não estou mais sabendo ler? Não, devem ser as janelas que estão fechadas; preciso de ventilação. Que brisa lá fora! Esse sol, então! Água, copo. Este texto está me dizendo que há leitor que se compraz com a leitura que, por sua vez, regozija-se com o prazer da produção desenvolvida pelo escritor. Mas nem sempre o prazer do escritor ao ter desenvolvido seu texto será o do leitor. Então, cabe ao escritor buscar este leitor que conjugue do mesmo enlevo em que a obra fora produzida. Nossa, que jogo! Preciso mais de água. Puxa! Peguei um copo sujo. Contaminei a água. Preciso ver um outro copo, um que esteja pronto para ser usado. A água potável é tão limpa. Mais salutar é a água do regato ou da fonte, pois não está manipulada. Só bebo da água que confio.
Esta leitura me está deixando tonto; tirando-me de órbita. Será que vou me perder? Tenho a sensação de que estou no meio de um labirinto. Quero mais água. O rio próximo a minha casa é de água cristalina, adoro me banhar nele. Suas margens. Uma encontra-se enfileirada de casas e a outra só em flores perfumadas e belas árvores. E, ao meio, suas águas. Quantas águas! Que prazer imaginá-lo agora quando paro um pouco a leitura.
Retomando minha leitura, às vezes me bate uma sensação de que estou sendo um leitor precipitado, falo isso porque há momentos em que passo por cima de alguns pontos importantes do texto, mas às vezes é porque este não me disse o que eu queria que me dissesse. Noutro, é por estar querendo ansiosamente chegar à conclusão do texto. Quero água. Mais água. Detesto texto que me considera um leitor sem conhecimento de mundo. Ou aquele texto cujo autor me trata como medíocre. Quero um texto que me mostre o mundo, não o defina. Que eu possa com ele sonhar em plena consciência de meus atos. Com esse texto, construo o mundo. Jung sonhou e fez o seu mundo. Nossa! Mas água. Fui ao médico, e esta sede não é diabetes. É calor mesmo. Scholes diz que “o mundo inteiro é um texto[1]”. Se o consigo ler, concordo.
Quando estamos diante de um texto que nos remonta as lembranças primeiras, belo será o cenário onírico por ele proposto. Minha sede fica amena. Sinto até vontade de fazer poesia. Mas temo fazê-la. Será isso fruto de alucinação? Mas como a água me conforta, tranqüilizo-me. E deixo vir minha leitura da leitura.
Um dia, fui ao Shopping comprar um livro e, com sede, fui tomar um copo d’água e, ao sentar-me, e começando a beber da água, e ler as preciosas páginas do livro, vi a minha frente uma linda figura que, de súbito, prendeu-me a atenção. Inquieto, volto à leitura. Mas o arroubo de meu outro texto me faz “ler-sonhar”, como declara muito bem Barthes[2]. Assim, o meu devaneio poético se fez:

Teu cigarro

Cheguei,
Chegaste
Bela e escultural.
Teu corpo fala ao meu,
Que trêmulo de desejo
Sinto até o hálito de tua boca
Carnuda e doce.
Teus gestos e teu sorriso
Me provocam um torpor,
Deixando-me frio e quente
Numa febre louca de prazer.
Quem dera ter sido o cigarro
Que acendeste em teus lábios
E em brasa satisfazer
A vontade do trago
Prazeroso deste momento tão teu.

Acho que agora vou precisar de um banho gelado, pois um copo d’água não será o suficiente para aplacar o calor e sede desse momento. A leitura de um texto de prazer faz o prazer do texto nos tomar por inteiro. Não sei se racionalizando o texto serei tão feliz com sua leitura. Acho que isso fica para os Teóricos. Por vezes me pego como se eu fosse o texto. Parece estranho. Mas é tanta intimidade que se manifesta, que vejo nisso uma cumplicidade, uma animada cumplicidade. Não creio no texto que se arregimenta de pudores.
Quando leio, tenho sede de imaginação, fluem daí imagens felizes, mas é um sonho em vigília. Este sonho é construtor. Copo e água. Parece que começo a compreender sua relação. É de forma e conteúdo. Por que preciso do copo? A água não me basta? Não vou ousar aqui responder. O que quero mesmo é aplacar minha sede. E, quando o frio chegar, enrolar-me no tecido aveludado e com ele me aquecer.
[1] SCHOLES, Robert. Protocolos de Leitura. Lisboa, ed. 70, 1991. p. 18.
[2] BARTHES, Ronland. O Prazer do texto. São Paulo, Perspectiva, 2002. p. 47.