“UM BEIJO NO ASFALTO”



Uma leitura da obra fílmica de Bruno Barreto
Um corpo estendido no chão assinala a história de um beijo que passa a acontecer no imaginário coletivo de todos presentes à cena, em que Tânatos vem em cortejo levar a alma de um moribundo.
A cena segue seu curso nos apresentando uma figura angelical dentro de um ônibus. Este anjo contempla a vítima como se dissesse ao mundo da dor sentida e do horror que se descortinaria a partir daquele instante. Um anjo por trás de um pára-brisa embaçado pela mancha do sangue do personagem falecido. Um pára-brisa que serve de escudo separando-o da obscuridade humana. Encontramos no Dicionário de Símbolos, de Chevalier e Gheerbrant o seguinte conceito de anjos: “Seres intermediários entre Deus e o mundo, mensageiros sob formas diversas nos textos bíblicos e outros. Seriam seres puramente espirituais, ou espíritos datados de um corpo etéreo, aéreo; mas não poderia revestir dos homens senão as aparências. Ocupariam para Deus as funções de ministros: mensageiros, guardiãs, condutores de astros, executores de leis, protetores dos eleitos etc.” (1994) Há um relato bíblico em que nos diz da vinda de um anjo, de nome Gabriel, anunciar a Virgem Maria a gravidez dela – a chegada do primogênito, filho de Deus, à terra. E o que nos proclamaria então aquele anjo dentro de um coletivo?
Possivelmente uma torrente de respostas poderá nos advir. Mas reflitamos um pouco a fim de que tenhamos uma resposta possível dos acontecimentos arrolados no filme em questão.
Uma antítese fica clara no filme de Barreto: o bem e o mal. A figura angelical, ao certo, é a representação do bem, assim como o suposto primeiro beijo dado no asfalto o seria, pois acontece como um ato solidário e de compaixão a dor alheia. Mas, no entanto, este procedimento só fez puxar um fio de uma teia social extremamente complexa, revelando-nos os desvarios de uma sociedade que oscila entre o normal e o patológico. Durkheim diz que “para as sociedades como para os indivíduos, sendo a saúde boa e desejável, é a doença, ao contrário, algo de ruim que deve ser evitado.”(2001, 42) Mas até onde o que nos parece são o é? A competitividade de uma sociedade ávida por consumo e individualista poderá ser a representação da saúde?
Pois bem, no filme nos deparamos com um personagem que nos chama atenção por sua postura: um jornalista que teve a “sorte” de presenciar uma cena de um beijo dado por um homem em outro que estava ultimando. Ao jornalista, podemos chamá-lo de “são”, pois a ele é conferido o direito de relatar os fatos que acontecem em nosso meio social. Porém, as atitudes demonstradas por este nos faz questionar o uso desse direito, por ter manipulado a seu favor o fato do suposto beijo no asfalto. Um procedimento sadio transformado em doença, pois, como se vê, trata-se de uma instabilidade patológica. A satisfação ou prazer do jornalista passou a ser o sofrimento alheio. O seu ganho está no fracasso do outro. Christopher Lasch diz que “segundo Maccoby, o ‘manipulador’ ‘é aberto a novas idéias, mas faltam-lhe convicções”. (1983, 71) Ou seja, este usará de qualquer meio a fim de que possa provar sua virilidade. Um comportamento inteiramente narcisista.
Ao que parece, a primeira visão do anjo seria a praga narcisista campeando com seu vírus toda a sociedade, em que sua primeira vítima foi abatida no primeiro beijo dado no asfalto.
Uma possível segunda visão seria a passagem das Harpias fazendo vir toda a podridão social como corrupção, falso moralismo, dentre outros.
Como vemos, Eros na figura de anjo se apieda do sofrimento causado por Tânatos marcando uma última visão de um beijo de morte que mais uma alma leva a Hades, seu reino de horror.
REFERÊNCIAS
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 2000.
CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro, José Olympio, 1994.
DURKHEIM, Emile. As regras do método sociológico. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 2001.
LANCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de janeiro, Imago Editora, 1983.
A cena segue seu curso nos apresentando uma figura angelical dentro de um ônibus. Este anjo contempla a vítima como se dissesse ao mundo da dor sentida e do horror que se descortinaria a partir daquele instante. Um anjo por trás de um pára-brisa embaçado pela mancha do sangue do personagem falecido. Um pára-brisa que serve de escudo separando-o da obscuridade humana. Encontramos no Dicionário de Símbolos, de Chevalier e Gheerbrant o seguinte conceito de anjos: “Seres intermediários entre Deus e o mundo, mensageiros sob formas diversas nos textos bíblicos e outros. Seriam seres puramente espirituais, ou espíritos datados de um corpo etéreo, aéreo; mas não poderia revestir dos homens senão as aparências. Ocupariam para Deus as funções de ministros: mensageiros, guardiãs, condutores de astros, executores de leis, protetores dos eleitos etc.” (1994) Há um relato bíblico em que nos diz da vinda de um anjo, de nome Gabriel, anunciar a Virgem Maria a gravidez dela – a chegada do primogênito, filho de Deus, à terra. E o que nos proclamaria então aquele anjo dentro de um coletivo?
Possivelmente uma torrente de respostas poderá nos advir. Mas reflitamos um pouco a fim de que tenhamos uma resposta possível dos acontecimentos arrolados no filme em questão.
Uma antítese fica clara no filme de Barreto: o bem e o mal. A figura angelical, ao certo, é a representação do bem, assim como o suposto primeiro beijo dado no asfalto o seria, pois acontece como um ato solidário e de compaixão a dor alheia. Mas, no entanto, este procedimento só fez puxar um fio de uma teia social extremamente complexa, revelando-nos os desvarios de uma sociedade que oscila entre o normal e o patológico. Durkheim diz que “para as sociedades como para os indivíduos, sendo a saúde boa e desejável, é a doença, ao contrário, algo de ruim que deve ser evitado.”(2001, 42) Mas até onde o que nos parece são o é? A competitividade de uma sociedade ávida por consumo e individualista poderá ser a representação da saúde?
Pois bem, no filme nos deparamos com um personagem que nos chama atenção por sua postura: um jornalista que teve a “sorte” de presenciar uma cena de um beijo dado por um homem em outro que estava ultimando. Ao jornalista, podemos chamá-lo de “são”, pois a ele é conferido o direito de relatar os fatos que acontecem em nosso meio social. Porém, as atitudes demonstradas por este nos faz questionar o uso desse direito, por ter manipulado a seu favor o fato do suposto beijo no asfalto. Um procedimento sadio transformado em doença, pois, como se vê, trata-se de uma instabilidade patológica. A satisfação ou prazer do jornalista passou a ser o sofrimento alheio. O seu ganho está no fracasso do outro. Christopher Lasch diz que “segundo Maccoby, o ‘manipulador’ ‘é aberto a novas idéias, mas faltam-lhe convicções”. (1983, 71) Ou seja, este usará de qualquer meio a fim de que possa provar sua virilidade. Um comportamento inteiramente narcisista.
Ao que parece, a primeira visão do anjo seria a praga narcisista campeando com seu vírus toda a sociedade, em que sua primeira vítima foi abatida no primeiro beijo dado no asfalto.
Uma possível segunda visão seria a passagem das Harpias fazendo vir toda a podridão social como corrupção, falso moralismo, dentre outros.
Como vemos, Eros na figura de anjo se apieda do sofrimento causado por Tânatos marcando uma última visão de um beijo de morte que mais uma alma leva a Hades, seu reino de horror.
REFERÊNCIAS
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 2000.
CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro, José Olympio, 1994.
DURKHEIM, Emile. As regras do método sociológico. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 2001.
LANCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de janeiro, Imago Editora, 1983.






